Qual a confiança que devemos ter nos cursos?

Eu recebi a seguinte pergunta do usuário Fëaléron do Fórum Valinor (verbatim):

Olá, Rodrigo.
Nas minhas andanças pelo fórum não pude deixar de notar sua forte atuação no que diz respeito aos idiomas élficos, o que me levou a acessar Tolkien e o Élfico.
Lá vi um artigo (Nova versão do Quetin i Lambe Eldaiva no forno). Fiquei um pouco assustado pois há pouco adquiri um exemplar do Curso de Quenya, einiciei meus estudos. O curso em desenvolvimento por Thorsten Renk invalida o de Helge Fauskanger? Ou este está ultrapassado? Gostaria de saber pois não tem sentido eu estudar regras que não estariam mais em vigência.

Desculpe-me incomodar, mas é que o meu maior interesse nesse fórum é explorar os idiomas tolkienianos.

Obrigado pela atenção.

Regras?!

Pergunta: “Qual o sentido em estudar regras que não estariam mais em vigência?”
Resposta:
Quais regras?! Não há regras!”

Neste momento eu gostaria de remeter o leitor ao post Elfling: Qualidade do élfico dos filmes do SdA (Parte 2) onde citei Bill Welden:

Tolkien não tinha uma gramática de Quenya. Sou eu que preciso dizer isto? Tolkien não tinha uma gramática de Quenya. […] [E]le tinha permissão para modificá-la, e isto é aparente em seu trabalho.

Então o que é um Curso de Quenya?

Do ponto de vista de um acadêmico, é uma introdução ao Quenya. Você pode aprender de forma muito mais rápida e simples coisas como o aoristo, os casos e outras funções gramaticais típicas do Quenya, para depois seguir com seus estudos através de fontes primárias (textos originais de Tolkien).

Do ponto de vista de um compositor, é um conjunto de regras estipuladas por um fã sobre o qual você pode criar composições em Neo-Quenya mais compreensíveis a outros entusiastas. O fã escolhe as funções gramaticais e o vocabulário padrão através de regras de precedência ou de forma totalmente arbitrária, e quem estiver disposto a utilizar aquele Neo-Quenya está livre para fazê-lo.

Uma resposta direta a todas as perguntas

Pergunta: O Curso do Thorsten invalida o do Helge?
Resposta: Não. É uma questão de escolha.

Pergunta: O Curso do Helge está ultrapassado?
Resposta: Para os padrões delimitados pelo Helge, ele está sim. O tradutor brasileiro Gabriel Brum está esperando o último quarto da nova versão do curso, que ainda está sendo escrita pelo Helge, para que uma segunda edição do livro impresso seja feita.

Pergunta: Há sentido em estudar o Curso do Helge, mesmo que o autor o dê por ultrapassado?
Resposta: Enquanto uma versão oficial nova de algum curso não está disponível com atualizações completas, sim, faz muito sentido. Poucos conceitos são modificados de versão para versão (eu mesmo já passei por uma ou duas versões do CdQ durante meus estudos).

Mas eu quero fazer perfeito!

Meus caros, lembrem que perfeição não existe, nem no que deveria ser perfeito. Eu já vi gente apontando irregularidades em verbos do esperanto! Para uma língua que deveria ser perfeitamente regular, irregularidades são aberrações. E no caso das línguas élficas, o próprio Professor imbutiu irregularidades aleatórias: ele não queria que fossem perfeitas! Quando começamos a dizer “ok, agora eu sei como fazer um pretérito”, vem um novo dado em uma nova publicação, ou vários dados antigos conflitantes, que destróem nossa teoria anterior.

Lembrem também que Tolkien trabalhou em cima de suas línguas desde jovem, e o Quenya em si só começou a ser criado quando o Professor tinha aproximadamente 20 anos. Foram 60 anos de aperfeiçoamentos só nesta língua. Não seja afobado, meu caro visitante, em querer compreender tudo o que é necessário em 6 meses ou algo do tipo.

Ademais, daqui há 1 ano ou 2 teremos mais uma publicação que trará mais uma formação inédita com uma função gramatical única que, se considerarmos o padrão de “o exemplo mais tardio é o melhor”, acabará jogando mais um pedaço do nosso neo-élfico atual no lixo. E você vai ter de aprender novamente essa parcela do seu neo-élfico. E a sua segunda edição do Curso de Quenya vai se tornar ultrapassada! É possível postergar o aprendizado do Quenya em 20 anos e ainda assim ter de lidar com a obsolescência dos dados. Por que deixar para mais tarde então?

4 comentários sobre “Qual a confiança que devemos ter nos cursos?

  1. Nossa! Muito obrigado, Rodrigo!
    Mais do que sim ou não, você contribuiu muito para o meu entendimento sobre o que esperar das líguas élficas. Mesmo sabendo sobre a escassez de material publicado para a fundamentação do Curso e das constantes alterações por parte de Tokien, eu tinha uma certa esperança de que fosse possível chegar a uma base gramatical sólida para o idiomas.
    Eu realmente pensava que após tanto tempo trabalhando no quenya, Tolkien tivesse elaborado uma gramática fixa, e que talvez esse material ainda não teria sido descoberto ou publicado. Mas já que “… o prazer da diversão está no momento da invenção…”, esperar que o autor consolidasse a gramática das suas línguas é algo muito limitado.
    Realmente muito obrigado, Rodrigo. Se posso sintetizar o que você ensinou é: se você quer compreender o quenya, esteja pronto para pensar como Tolkien, pois a mudança será uma constante nos seus estudos.

  2. Nossa! Muito obrigado, Rodrigo!
    Mais do que sim ou não, você contribuiu muito para o meu entendimento sobre o que esperar das líguas élficas. Mesmo sabendo sobre a escassez de material publicado para a fundamentação do Curso e das constantes alterações por parte de Tokien, eu tinha uma certa esperança de que fosse possível chegar a uma base gramatical sólida para o idiomas.
    Eu realmente pensava que após tanto tempo trabalhando no quenya, Tolkien tivesse elaborado uma gramática fixa, e que talvez esse material ainda não teria sido descoberto ou publicado. Mas já que “… o prazer da diversão está no momento da invenção…”, esperar que o autor consolidasse a gramática das suas línguas é algo muito limitado.
    Realmente muito obrigado, Rodrigo. Se posso sintetizar o que você ensinou é: se você quer compreender o quenya, esteja pronto para pensar como Tolkien, pois a mudança será uma constante nos seus estudos.

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