Compreenda a história do pronome “nós” em élfico

O estudioso Roman Raush escreveu em seu site Sindanórië um artigo chamado Sobre as diferentes formas de “nós” em Eldarin. Quem lê este blog e já estudou o Quenya deve saber que há uma certa razão para estudar as formas da 1ª pessoa do plural em específico, de forma cronológica. Para quem não estudou, eu explico:

É difícil haver um tema mais discutido na lingüística tolkieniana do que os pronomes, ainda mais entre os compositores de neo-élfico. Antes do VT49 e do PE17 havia uma falta de informação sobre o assunto, e agora há uma abundância de exemplos e tabelas. Ocorre que, como Tolkien nunca escreveu uma gramática de Quenya atualizada até o pináculo de seu desenvolvimento em 1973, fica a critério do compositor decidir que funções gramaticais ele utilizará ou não em suas obras neo-élficas.

Ademais, a 1ª pessoa do plural no Quenya é diferente da que nós encontramos no português, inglês, e outras línguas mais conhecidas. Ela possui quatro formas distintas:

Inclusiva
Ela inclui a pessoa com quem falamos. Por exemplo, quando falo de você (leitor), um grupo de amigos meus, e eu (escritor) como “nós”, estou incluindo você no nós, e portanto em Quenya eu utilizaria o “inclusivo”.
Exclusiva
Ela não inclui a pessoa com quem falamos. Quando meu grupo de amigos e eu falamos para você sobre “nós”, o nós aqui é exclusivo, pois não estamos contando você entre “nós”.
Dual inclusiva
Quando falo “nós” no sentido de “nós dois, você e eu”, note que são apenas duas pessoas, e que estou lhe incluindo. Por isso que é “dual” e “inclusivo”.
Dual exclusiva
É quando falo “nós” no sentido de “nós dois, meu amigo e eu, mas não você”. Ou seja, eu estou excluindo a pessoa com quem eu falo do “nós”, tornando-o “dual” (pois são duas pessoas no “nós”), mas desta vez ele é “exclusivo”.

Há um ano atrás era fácil encontrar um padrão para a utilização dos pronomes pessoais para composições: seguia-se o paradigma estipulado por Helge Fauskanger em seu Curso de Quenya e pronto! Mas hoje há um outro Curso de Quenya, o Quetin i Lambe Eldaiva do Thorsten Renk, que contém informações mais novas do que o Curso do Helge, mas faz uma escolha diferente em seu paradigma de pronomes pessoais. Por fim, você pode também considerar o paradigma sugerido por Carl Hostetter na Wikipédia (e reproduzido aqui), que embora não seja criado com o neo-élfico em mente, pode ser adicionado a um comparativo.

Juntos, os três paradigmas dão as seguintes sugestões para a 1ª pessoa do plural:

Tabela 1: Comparação entre paradigmas da 1ª pessoa do plural em Quenya tardio.
Fauskanger Renk Hostetter
Inclusivo -lvë -lmë -lvë/-lwë
Exclusivo -lmë -mmë -lmë
Dual inclusivo -mmë -lvë/-ngwë -ngwe/-ince/-inque
Dual exclusivo -mmë

Como vocês podem ver, os três paradigmas concordam em alguns pontos e discordam em outros quase de forma aleatória, aos olhos de alguém que, ao contrário de Roman Rausch, não leu as fontes primárias dessas formas. Mas através do artigo do estudioso alemão, é possível ver os motivos por trás da escolha de cada um dos paradigmas:

  • Fauskanger, com menos fontes para trabalhar, preferiu as formas mais tardias conhecidas até o momento em que compôs o seu Curso. Contudo, na página 227 dele, você pode ler que o próprio Fauskanger utilizava um sistema parecido com o de Renk. No fim das contas ele utilizou uma tabela deduzida com os valores pós-1965 (quando a Segunda Edição do SdA foi publicada, onde omentielmo virou omentielvo).
  • Renk, com mais material para trabalhar, decidiu por uma tabela alternativa: ao invés de utilizar os valores de 1965, agora disponíveis, ele utilizou um paradigma anterior, que coincide com a primeira edição do SdA. As razões eu escrevo abaixo.
  • Hostetter, creio eu, nunca teve a intenção de que o seu resumo se tornasse um paradigma a ser utilizado. Portanto, ele apenas fez um agregado de tabelas pós-1965, com informações que Fauskanger não tinha quando escreveu o seu Curso.

Quanto ao raciocínio de Renk? Ele provavelmente é fundado em dois fatores:

  1. No Louvor de Cormallen, os soldados falam a palavra laituvalmet, que manteve-se dessa forma nas duas edições do SdA. Na Primeira Edição, os soldados dirigiam-se a si próprios, incluindo todos os soldados entre aqueles que longamente louvarão os dois Hobbits. Na Segunda Edição eles se dirigem aos Hobbits, dizendo que “longamente louvaremos vocês dois”, excluindo Frodo e Sam do “nós”. Portanto o sentido é uma questão de interpretação.
  2. Na mais lembrada omentielmo/omentielvo, no ensaio de 1960 “Quendi and Eldar”, quando -lme ainda era uma forma inclusiva, Tolkien deixa explícito que a palavra omentië é utilizada para encontros entre dois grupos, enquanto yomenië é utilizado para encontros entre três ou mais grupos. Portanto, ao manter -lva como dual a frase ainda faz sentido, pois o grupo dos Hobbits e o grupo dos Elfos formam dois grupos; desta forma é possível utilizar a forma dual de “nós”.

Agora que expliquei sobre os paradigmas do neo-élfico, fica a questão: e Tolkien?

Através do artigo é possível ver, como diz Rausch, que Tolkien não criou a mudança no sentido das desinências do nada. A idéia do uso de me- como forma exclusiva e qe-, mais tarde *we- como formas inclusivas vêm das primeiras versões do Qenya, como as encontradas no Early Qenya Grammar.

Para os que se interessam pelo estudo, um ensaio comparativo cronológico assim nunca foi feito sobre o assunto. Para os que se interessam por compor, é mais um aviso de que o material mais antigo pode trazer informações interessantes sobre as idéias do Professor.

3 comentários sobre “Compreenda a história do pronome “nós” em élfico

  1. De acordo com a maioria, pelo que pude ver, a desinência -lvë vem da antiga -lwë, certo?

    Pois bem, em Tengwar, esse “v/w” seriam escritos com a tengwa Vala ou com a Wilya / Vilya?

    Grato

  2. Tolkien só utilizou vilya uma vez, que foi na palavra vanwa no Namárie do RGEO. Sendo o próprio v de vanwa escrito com vala ao invés de vilya, apesar de v inicial < w, acho mais garantido utilizar vala para <v>e vilya para <w>.

  3. Tolkien só utilizou vilya uma vez, que foi na palavra vanwa no Namárie do RGEO. Sendo o próprio v de vanwa escrito com vala ao invés de vilya, apesar de v inicial < w, acho mais garantido utilizar vala para <v>e vilya para <w>.

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