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Elfling: Qualidade do élfico dos filmes do SdA (Parte 3)

Como falei em uma mensagem anterior, antes de ser útil, uma língua criada por Tolkien deveria ser bela, e Tolkien não as media por padrões que não fossem estéticos, para o bem ou para o mal. O Professor menciona em uma carta que certa vez recebera de presente um cálice de aço com as inscrições do Anel. “É claro que nunca bebi nele, mas o uso como cinzeiro.” (Cartas: 399)

Digamos que você começou agora a tentar escrever em élfico. Quão importante esta discussão pode ser para você?

  1. Ela retira da sua cabeça um elemento que só gera frustração: o mito de que algum dia existiu, em escrito ou na cabeça de Tolkien uma gramática definitiva das línguas élficas. Eu já criei traduções para o élfico horrendas, por acreditar que isto realmente existia;
  2. Ela mostra que, mesmo assim, é bom que este mito seja nutrido no início, para que você sinta-se a vontade com um cenário menos volátil e compreenda as funções gerais das línguas élficas;
  3. Ela demonstra que o limite não é o que Tolkien escreveu, mas sim o que você pode fazer com as idéias que Tolkien disponibilizou;
  4. Que ser criativo é uma prática apoiada pelos maiores entendedores das línguas tolkienianas, embora eles sejam um tanto exigentes. 😉

Desde que comecei a escrever este acompanhamento, mais algumas mensagens relacionadas foram enviadas à Elfling e é provável que muitas outras sejam enviadas. Este acompanhamento foi realizado apenas para a ramificação iniciada por Bill Welden na mensagem 33732. Até agora foram criadas outras três ramificações, por Kirsten (33724), por David Salo (33726) e por Thorsten Renk (33770), todas com informações interessantes àqueles que só estão interessados em saber sobre os filmes ou por uma análise mais profunda do Neo-Sindarin dos filmes.

Elfling: Qualidade do élfico dos filmes do SdA (Parte 2)

Esta é a segunda parte da discussão sobre a qualidade do élfico dos filmes d’O Senhor dos Anéis. Se você não leu a primeira parte, pode acessá-la por este link.

Na mensagem 33732, Bill Welden (membro da E.L.F.) escreveu (todas as ênfases são minhas):

Então, Matthew. Digamos que [Peter Jackson et alii] conseguissem que o próprio Tolkien fizesse as traduções; mas mantivessem sua participação secreta.

Qual você supõe que seria sua avaliação da qualidade das traduções? (Note que haveria mais do que algumas palavras que nós nunca vimos antes.)

Assim como nós iríamos ouvir muitas novas palavras e funções gramaticais e variações dialetais e sinônimos (por que não podem existir duas palavras para “nome”?) – e até mesmo erros – se nós pudéssemos escutar por trás das portas a elfos de verdade falando uns com os outros.

Minha maior esperança para o filme circulava em torno da possibilidade que ele iria criar a impressão de realmente ter sido rodado na Terra-média.

– Bill

P.S.: Eu lanço esta questão neste ângulo pois vai ao núcleo do que fazemos aqui. O padrão pelo qual composições em élfico são julgadas tem um quê das Novas Roupas do Imperador. Isto pode começar a ficar claro se alguém colocasse esse padrão em palavras.

Em outras palavras, Bill Welden fez uma pergunta que assombra os praticantes do Neo-Élfico há muito tempo: como julgar essas novas composições como “corretas” se o próprio Tolkien quebrava suas regras quando compunha?

Seguindo um pedido de Helge Fauskanger na mensagem 33740 para clarificar a sua metáfora, Welden decide utilizar uma metáfora mais fácil de explicar:

[E]stamos todos procurando por gemas em um grande campo, mas somos castigados sempre que nos distanciamos demais do ponto central do campo. O que acontece é que, ao invés de tentar encontrar as gemas nós estamos mais interessados em garantir que não seremos aquele que estará mais longe do centro; mas ao fazê-lo torna-se muito menos provável que encontremos algo.[…]

[…]O campo são todas as possibilidades que Tolkien poderia seguir com o Quenya. O centro do campo é a forma mais provável de qualquer palavra ou função. As gemas são as composições que ele eventualmente faria se fosse dado tempo para as geleiras descerem mais uma vez em Bornemouth.

Tolkien era quase sempre surpreendente em suas composições. Por outro lado, qualquer um que se foque em qual seriam as formas mais prováveis, está na verdade se dando a tarefa de não ser surpreendente; e isso garante que eles sairão com algo diferente do que Tolkien produziria.

Welden finaliza explicando sua primeira metáfora:

Aqui é onde tudo sai dos trilhos: é a presunção de que o Quenya existe e tem guardiões da gramática prontos para cortar dedos.[…]

As roupas do imperador, eu suponho, são as regras do Quenya. Nós não as sabemos. Você [Helge] não as conhece, embora quase todos aqui pensem que você sabe. Eu não as conheço, mesmo que algumas pessoas achem que eu tenho um baú secreto. Mas o maior mito é que Tolkien as conhecia.

E então o imperador deve ser Tolkien. Tolkien não tinha uma gramática de Quenya. Sou eu que preciso dizer isto? Tolkien não tinha uma gramática de Quenya. […] [E]le tinha permissão para modificá-la, e isto é aparente em seu trabalho.

Para quem está com medo de que o mundo lingüístico tolkieniano comece a ruir, não tema! 🙂 Welden garante que não está advocando em prol do “vale-tudo” nas línguas élficas. “Em um extremo, cada um de nós tem um julgamento que cada composição nós encontramos; mas há algumas pessoas para as quais o élfico da Grey Company está bem!” e que o que ele deseja “não são palavras em élfico amarradas umas às outras; mas uma Experiência do élfico que eu consegui através de Tolkien em primeiro lugar.” (Elfling 33768) Em troca, Welden pergunta a Thorsten Renk (escritor do Curso de Sindarin) qual é seu padrão para julgar as composições em Neo-Élfico. Ele responde na mensagem 33769:

Em minha experiência, se você quer introduzir alguém a uma língua, é útil manter a ficção de que existe uma gramática de Quenya (ou Sindarin) e que nós sabemos como uma forma seria flexionada.

[…]

Sua sugestão eu veria como um exercício avançado. Obviamente, para chegar mais perto de Tolkien, você já precisa ter visto muito de Tolkien, você precisa ter uma idéia para onde fluem suas idéias, quais eram bem quistas por ele e quais ele descartava facilmente. Poucas pessoas tem o conhecimento para ver isto, certamente uma minoria daqueles tentando compor em élfico. […] Se você me perguntar o que eu julgaria como “bom”, a primeira condição seria o núcleo da estrutura, as idéias que Tolkien não mudou, devem estar certas.

[…]

Então, hoje em dia eu tento experimentar um pouco mais – com as formas do pretérito que eu gosto melhor, com construções vistas em Qenya e coisas do tipo. Mas eu não recomendaria isto para qualquer pessoa, a não ser que ele(a) saiba por exemplo o esquema utilizado por Tolkien para construir palavras das raízes [do Proto-Eldarin].

[…]

Portanto há um caminho a trilhar enquanto se aprende mais, do élfico padrão a re-frasear e usar o élfico atestado até compreender os princípios para derivar suas próprias palavras e, por fim, ter uma opinião de que gramática élfica é aceitável para você, e o que eu acho que as pessoas deveriam fazer depende em onde elas estão neste caminho.

Na parte 3, as considerações finais.

Elfling: Qualidade do élfico dos filmes do SdA (Parte 1)

No dia 21 de dezembro, a mensagem 33718 da lista Elfling iniciou uma das mais extensas e divertidas discussões sobre o uso pós-Tolkien das suas línguas, rotulados de Neo-Quenya e Neo-Sindarin. Até hoje (6/1/2007) foram escritas 30 mensagens discutindo o tópico, 25 na lista Elfling, 5 na lista Elfling-D (esta última foi criada para aqueles que foram banidos ou censurados na Elfling). Os participantes incluem nomes ilustres, como David Salo (criador dos diálogos e das letras das músicas em élfico nos filmes d’O Senhor dos Anéis), Helge Fauskanger (criador do Curso de Quenya), Thorsten Renk (criador do Curso de Sindarin), Bill Welden, Carl Hostetter e Patrick Wynne (membros da Elvish Linguistic Fellowship, os dois últimos via Elfling-D).

A mensagem original é de “Kirsten”, reproduzida abaixo:

Eu sei que algumas pessoas já trabalharam duro para descobrir o que significam os diálogos e a trilha sonora¹ em élfico nos filmes d’O Senhor dos Anéis, mas já houve alguma discussão da qualidade das traduções para o élfico usadas nos filmes? Elas são de maneira geral corretas ou alguém já observou algum erro óbvio? Eu não sei sobre vocês, mas eu estou muito interessada nesse aspecto das traduções. Também, o que pode-se dizer das pronúncias? Eu realmente gostaria de ler uma discussão desses assuntos por um grupo de pessoas que conhecem bem as línguas de Tolkien.

Kirsten

Na resposta de Halrawrandir na mensagem 33720 o autor diz que “é necessário concordar” que as traduções foram as melhores possíveis. Contudo, Matthew Dinse na mensagem 33721 disse discordar, e listou “alguns problemas” do Sindarin nos filmes:

  • Uso de aen para voz passiva quando não sabemos qual é sua real função com certeza;
  • Uso de go como uma palavra separada e não um prefixo;
  • Formação do pretérito do Sindarin;
  • Uso de *-ch para “você”;
  • Gerúndios no plural;
  • Conjugação do verbo ista-;
  • Uso de *ae para “se”;
  • Uso de **hanna- como o verbo “agradecer” (ao invés de *anna-, segundo Carl Hostetter);
  • Uso de **ess para “nome”, embora eneth não houvesse sido publicado na época.

Desde essa mensagem de Matthew Dinse 26 outras foram escritas no tópico, criando três ramos diferentes de discussão.

Embora todas as mensagens possuam um valor imenso, manterei o foco apenas no terceiro ramo, criado por Bill Welden na mensagem 33732. O resumo será publicado na próxima mensagem, que você pode acessar por este link..

Fiquem ligados!


¹ Links adicionados pelo tradutor, por motivos de brevidade.

Elfling: Línguas élficas com “sabores” diferentes

Tolkien criava línguas pelo puro prazer que a atividade lhe dava. Este prazer vinha, mais do que tudo, da necessidade estética que Tolkien sentia: a sua língua dos sonhos precisava ser bela, antes mesmo de possuir uma gramática elaborada. Isto torna as línguas élficas fundamentalmente diferentes do Esperanto e do Klingon.

Contudo, Tolkien não está sozinho em seu “vício secreto”, como fica evidente pela mensagem 33738 da lista Elfling escrita por Olga (nick “rikkuras_del_mas_alla”):

Olá!

Eu pensei sobre a idéia de criar novas línguas élficas com diferentes sabores¹, incluindo as não-européias. Eu sei que houveram algumas tentativas, mas elas são todas européias ou germânicas em sabor. Eu sugiro os seguintes estilos:

  • Francês ou outra românica
  • Grego (mais que o Quenya)
  • Eslavo ou báltico
  • Indo-ariano ou dravídico
  • Nativo americano (embora esta seja muito vaga)
  • Austronésio (pode ser malaio/indonésio, filipino ou polinésio)
  • Africano (bantu)
  • Japonês ou coreano
  • Chinês (embora eu ache que este seria muito difícil)
  • Gaélico
  • Húngaro
  • Altaico
  • Caucasiano (embora eu não sei…)
  • Sumério (embora este também eu não conheça muito)

São vários, não são?
Logo haverão mais!

Saudações,
Olga

Respostas

Na mensagem 33739, Matthew Dinse responde que já houveram tentativas de criar novas línguas a partir das raízes do proto-Eldarin e que algumas das sugestões já foram realizadas por Tolkien. Ele lista o Telerin como de “sabor” italiano e o Naffarin (língua da juventude de Tolkien) como influenciado pelo latim e espanhol, o que supre as necessidades do “sabor francês e românico”. Quanto ao indo-ariano, na mensagem 846 da lista Lambengolmor Bertrand Bellet discute as semelhanças entre o Adûnaico e o sânscrito. Quanto ao gaélico ele nota o desgosto de Tolkien pela língua (ele fala que ia “freqüentemente à Irlanda [Eire: Irlanda Meridional], sendo apreciador dela e [da maioria] de seu povo; mas a língua irlandesa considero totalmente sem atrativos.” [Cartas: 275]); contudo alguns argumentam que a língua da Terraparda é semelhante ao gaélico (ver mensagem 33074 de “shanearda” e uma divertida brincadeira lingüística resultante na mensagem 33397). Por último, o Valarin possui algumas pitadas da fonologia suméria, segundo Dinse.

“Melroch ‘Aestan confirmou a Olga em 33742 que, realmente, as pessoas já tentaram isso antes. Ele mesmo tentou criar uma língua élfica com “sabor” Avestano/Ariano, mas que (em sua opinião) felizmente o disco onde esta língua estava gravada quebrou, pois sua compreensão da fonologia dessas línguas “desenvolveu-se consideravelmente desde então”.

Contudo, Melroch (que é Phillip/Felipe em Sindarin, aliás) fez uma ressalva sobre o processo colaborativo na criação dessas línguas-modelo: em sua opinião tais tentativas levam a discussões sobre detalhes de design, e que é muito mais divertido deixar cada um criar seu próprio “dialeto” ou ramo.

Por fim, David Salo (criador dos diálogos para os filmes d’O Senhor dos Anéis e do controverso A Gateway to Sindarin) diz na mensagem 33751 que em seus arquivos há diversos rascunhos de línguas élficas “e-se”. Alguns rascunhos, ele diz, são bem estensos. Salo falou que encara a criação dessas línguas como um jogo que “tende a fixar a estrutura e fonologia do Eldarin e a língua-modelo de maneira forte na mente de uma pessoa”. Entre suas tentativas há o grego antigo, francês, iídiche e o pali.

Salo cita mais alguns exemplos de “sabores” que Tolkien experimentou: o dialeto Daniano e Leykviano são baseados no inglês antigo e nórdico antigo respectivamente.

Além dessas respostas, houveram mais duas mensagens por Olga, uma direcionada a Matthew Dinse e outra a direcionada a David Salo, mas ambas não contribuíram muito para a discussão até o momento.


¹ Tolkien disse várias vezes que cada língua tinha um sabor, e que o seu contato com o finlandês “[f]oi como descobrir uma adega completa repleta de garrafas de um vinho estupendo de um tipo e sabor jamais provados antes. Em muito me embriagou” (Cartas: 206). De fato, existe uma palavra em Quenya para este elemento estético: lamatyávë “gosto pelo som”, alcançado no final do amadurecimento dos Elfos.