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Não, eu não tiro o significado dos nomes do traseiro

Um aviso de utilidade pública: Eu não tiro os significados dos nomes do meu traseiro. Eu pesquiso em fontes sérias e dedicadas a descobrir o verdadeiro significado dos nomes.

  • Vanessa nunca vai ser “rainha das borboletas” só porque alguém viu que um gênero de borboletas tem seu nome.
  • Tiago nunca vai ser um nome diferente de Jacó.
  • Jacó, por sua vez, nunca vai ser nada além de “segurado pelo tornozelo”.
  • E eu nunca vou confiar na sua versão do seu nome só “porque sim”.

Quer que eu confie na sua versão? Envie um link com o site que você encontrou o significado! Envie o nome do livro que você encontrou o significado! Me diga em qual página de qual edição desse livro o significado está! Me diga quais são as fontes de pesquisa do seu livro!

Eu tenho minhas fontes de pesquisa: o Behind The Name e o Online Etymological Dictionary. Elas citam fontes e fazem um trabalho de pesquisa pesado.

Se a sua fonte não estiver à altura das minhas, eu não vou nem deixar o seu comentário online, para que ele não reforce a opinião de outros que também não compartilham do meu senso de seriedade.

Quer eu queira ou não, diversas pessoas tatuam — escrevem permanentemente em seus corpos! — coisas que eu escrevo neste site. Eu levo isso muito a sério. E não vou fazer um trabalho meia-boca de pesquisa só porque alguém não se sente feliz de não ter o seu nome traduzido.

Vale a pena?

Ford Nucleon, um carro conceito.

Felizmente, quando eu criei este site, a exatos 5 anos atrás, eu o fiz a prova de donos relapsos. 🙂

Eu agradeço a todas as pessoas que tornam a visitar o site, e todos aqueles rostos novos que aparecem diariamente também. Um deles é o Peter, que me enviou um e-mail:

Eu estava querendo muito “aprender” Quenya ou Sindarin mas li seu tópico que não é possível se comunicar com as pessoas nem nada. Poxa tenho que dizer que isso me desanimo um pouco, enquanto lia os livros me imaginava no local conversando com eles em Quenya, isso sempre me animou. Tenho um colega que sabe rúnico o que é bem diferente e até dá para fazer muita coisa, mas meu objetivo era o elfico. Você acha que realmente compensa? Dá para fazer algo com o Quenya ou Sindarin, ou somente frases com as palavras que existem? Gostaria de uma reposta sua muito obrigado =D.

Peter, cada minuto que eu investi valeu a pena. Não pelo que eu realmente utilizei das línguas, mas pelo que elas me permitiram pensar sobre o aprendizado e o uso das línguas em si, sobre o prazer de utilizar palavras de novas maneiras e pensar sobre elas de uma forma metódica e filosófica. É sim possível criar novas palavras e novos textos élficos. É possível manter uma conversa básica em élfico. Mas essa não é a “moral” das línguas élficas.

Tolkien criou essas línguas para mostrar como ele achava que uma língua deveria ser para ter a estética fonética que ele procurava. É como se fosse um estilista desenhando roupas experimentais, que nunca vão ser utilizadas na rua, mas que fazem o que ele quer: tem a cor, o brilho, o movimento e os detalhes que ele gostaria de ver em uma peça, embora talvez seja impossível um homem ou uma mulher se sentir confortáveis (ou respeitáveis) vestindo elas.

Para usar uma analogia mais máscula automobilística, as línguas élficas são como carros conceito. Carros conceito não foram feitos para andar na rua: eles foram feitos para inspirar uma nova linha de pensamento sobre a construção de carros e quais funcionalidades eles deveriam ter. Por exemplo, veja a imagem deste post. O Ford Nucleon, como o nome implica, foi um carro conceito da Ford, criado em 1958, para avaliar as possibilidades de um veículo automotivo movido a energia nuclear. Nenhum veículo automotivo até hoje utilizou energia nuclear até onde eu saiba, mas o espírito desse conceito era explorar a possibilidade e instigar a curiosidade de engenheiros. Como a própria Ford disse:

Carros como o Nucleon ilustram o quão profundas eram as pesquisas sobre o futuro conduzidas na Ford, e demonstram que os designers recusavam-se a admitir que algo não poderia ser feito simplesmente porque nunca havia sido feito.

Quando Tolkien inventou as línguas élficas, o único exemplo de língua inventada que “deu certo” era o Esperanto. Criar línguas era um “vício secreto”, como ele descreveu. Mas ao contrário de L.L. Zamenhof, o seu objetivo era que elas fossem bonitas, e não úteis. Ele queria passar um senso estético elevado, e não resolver um problema geopolítico. Ambas são “línguas conceituais”, mas o Quenya e o Sindarin tem outro objetivo conceitual: o de construir a língua mais bela que já existiu. O que ele não esperava é que as pessoas fossem gostar tanto da invenção dele a ponto de querer compartilhar da criação.

Minha vida nunca mais foi a mesma depois das línguas élficas, porque eu sempre me senti mais consciente do que eu escrevo e do que eu falo, de como eu falo e do significado mais profundo do vocabulário que eu utilizo. É como se um terceiro olho houvesse se aberto na minha testa. Em outras palavras, valeu a pena.

O porquê de não haver videoaulas em élfico

Palestra sobre Tengwar na RPGCon
Palestra sobre Tengwar na RPGCon, cortesia do Inácio "Feanor" Silva.

Minha opinião é de que aulas de élfico não vão ser feitas em vídeo nunca. Existem algumas razões para isso.

A primeira barreira é que eu acredito que as pessoas tem uma visão do élfico que não condiz com a realidade, se desiludem rapidamente e, finalmente, desistem. Todo novato chega pensando que vai falar élfico fluentemente. Isso não vai acontecer. Nos falta vocabulário e gramática! Quando essa visão é desconstruída, 95% das pessoas (talvez mais) desiste de aprender élfico, pois não vão conseguir fazer o que querem com esse conhecimento: se comunicar com outros, como nos filmes.

A segunda barreira é a metodologia. Como conversar é impossível, escrever é o ponto de partida de qualquer composição em élfico. Para aprender a escrever nessas línguas, é muito mais fácil consultar um livro do que um vídeo.

A terceira barreira é de conhecimento do próprio criador desses possíveis cursos. A pessoa necessitaria não somente de um conhecimento sólido das línguas, como também necessita de um conhecimento sólido em metodologia de ensino. Ensinar coisas por texto é diferente de ensinar coisas através da fala.

A quarta barreira é decorrente da terceira: eu só conheci uma pessoa que tem conhecimento das línguas, conhecimento profissional de linguística e conhecimento de metodologia de ensino suficientes para criar uma série de videoaulas. E ele é norueguês. E não fala português.

A quinta barreira é monetária. O único lucro para o criador das videoaulas seria o conhecimento adquirido através da produção e um projeto no portfólio. Mas para que ele possa adicionar esses trabalhos no portfólio, ele precisa investir.

Boas câmeras e microfones custam dinheiro. Ninguém quer produzir um vídeo onde a pessoa parece que é um prisioneiro de alguma facção terrorista. E ninguém quer escutar uma voz abafada ou chiado quando o som é tão importante à explicação! A produção de material custa tempo. A produção de áudio, vídeo e iluminação custa tempo. É quase impossível tornar esse esforço em dinheiro suficiente para cobrir os custos da produção.

Por fim, existe um último argumento contra as videoaulas. Elas não são realmente necessárias. Problemas na compreensão do élfico são geralmente relacionadas à pronúncia, algo que é facilmente solucionável com uma pequena ajuda, o envio de um pequeno arquivo de som, uma instrução de 10 minutos no Skype ou algo similar. Este site está no ar desde dezembro de 2006 e eu não lembro de ter recebido uma mísera pergunta sobre morfologia, sintaxe ou semântica por e-mail ou comentário. Só a fonética é problemática. E para a fonética já foi construído diversos artigos e sites com exemplos dos sons.

Com tudo isso dito, não se sintam desencorajados a estudar as línguas élficas. Eu adoraria ser inundado por perguntas de pessoas que estão realmente tentando aprender a escrever em élfico, em vez de apenas consumir élfico. Me envie um e-mail pelo formulário de contato no topo da tela, ou me encontre no Twitter em @rodrigolj. Pedidos de auxílio com a gramática são muito mais rápidos de atender do que auxílio com traduções e nomes.

Como eu faço para aprender élfico?

Uma pergunta que eu recebi por e-mail. Segue a minha resposta:
Depende se você sabe falar inglês ou não.

Se souber, então http://people.uib.no/hnohf/ sempre tem a mais recente versão do Curso de Quenya (a língua mais desenvolvida por Tolkien) e http://www.phy.duke.edu/~trenk/elvish/ tem a versão mais recente do Curso de Sindarin (a segunda língua mais desenvolvida por Tolkien).

Se não souber, a versão atual do Curso de Quenya traduzida para o português pode ser baixada em http://www.ardalambion.com.br. Já a versão mais atualizada do Curso de Sindarin traduzida para o português só está disponível em forma de livro, distribuída pela editora Arte&Letra. Uma versão mais antiga desse curso está disponível também em http://www.ardalambion.com.br.

Uma versão atualizada do Curso de Quenya vai ser publicada pela Arte&Letra ainda neste ano. A do site provavelmente não vai ser atualizada.

Cinco coisas que eu aprendi estudando Tolkien

Eu cansei de ter de explicar de novo, de novo e de novo, por que eu “gasto tempo” com algo “inútil” como estudar élfico. Eu tenho um blog e só preciso explicar uma vez, por escrito. Abaixo, as cinco coisas que aprendi com Tolkien e que mostram que eu não gastei meu tempo em vão:

Descubra cedo o que você ama fazer

Tolkien não foi o único a descobrir do que gostava na tenra infância. Warren Buffett descobriu o mundo dos investimentos aos sete anos de idade, sendo em 2010 o 3º homem mais rico do mundo (e por várias vezes o 1º ou o 2º). Tolkien tinha seis anos quando tentou escrever uma história sobre “um verde dragão grande” e, quando corrigido pela sua mãe, ficou intrigado em por que a ordem correta seria “um grande dragão verde”. Eu descobri o que eu gostava tarde na vida, mas foi por causa de Tolkien. Quando eu tiver os meus filhos, quero poder expô-los a situações em que possam descobrir o que gostam de fazer.

Tenha Fé

Perdendo o pai muito cedo e a mãe aos 12 anos de idade Tolkien tinha tudo para dar errado, mas a fibra moral dele vinda de sua fé era mais forte. Eu não compartilho da religião de Tolkien, e eu entendo que muitos de vocês que me visitam podem ser ateus, mas a mensagem é a mesma: tenha perseverança e siga em frente.

Apaixone os outros com a sua paixão

Humphrey Carpenter diz isto sobre os alunos de Tolkien em Oxford (CARPENTER, H. J.R.R. Tolkien: a Biography, p. 160):

“Os alunos na audiência conhecem ele bem e são seguidores fiéis de suas aulas, não apenas porque ele dá uma interpretação iluminadora dos textos, mas também porque eles gostam dele: eles gostam de suas piadas, são acostumados à sua forma rápida de falar e acham ele perfeitamente humano, certamente mais humano que alguns de seus colegas, que dão suas aulas com uma total indiferença à sua audiência.”

Em Leeds, Tolkien criou o “Clube Viking”, para leitura de obras em islandês. Em Oxford ele criou os Coalbiters com o intuito de “persuadir seus amigos que a literatura islandesa vale a pena ser lida na língua original” (idem, p.164). Mais tarde Tolkien e C.S. Lewis criaram o famoso clube Inklings, para discutir as obras que cada membro estava produzindo. Por todos os lugares onde passava, Tolkien tentava fazer com que as pessoas se apaixonassem pelo que ele era apaixonado. E de vez em quando ele conseguia.

Carpe diem

Tolkien viajou pouco (fisicamente, ao menos), mas aproveitou todas as suas viagens ao máximo. Qualquer passeio era uma jornada para ele. Bastou uma visita à Suíça para que ele criasse Valfenda. Eu percebi que durante muito tempo eu ligava o piloto automático na minha vida e deixava-a passar sem perceber o quanto eu perdia de conhecer.

A vida não é para sempre

Esta é a única lição negativa que eu tive de Tolkien: ele procrastinava demais e era muito indeciso. A obra que ele mais amava nunca foi publicada por causa disso. Ele poderia ter se aposentado mais cedo, poderia ter uma vida mais tranquila mais cedo, não fosse ele alguém tão dispersivo. O nosso tempo neste mundo não é como o dos Eldar, precisamos ser mais objetivos.

O discurso do Slicer

Assistindo O Discurso do Rei, eu lembrei dos meus próprios problemas de fala. Para quem não me conhece pessoalmente, eu falo com um chiado “lulesco”, eu gaguejo ocasionalmente, as palavras costumam fugir da minha mente com facilidade e eu tendo a alternar entre um tom muito baixo e um tom muito alto. Equilíbrio na fala não é meu forte.

Vai fazer 7 anos agora, no início de março, que eu fiz minha primeira palestra. Em fevereiro de 2004, eu fui convidado com duas semanas de antecedência a fazer uma palestra sobre a vida do autor J.R.R. Tolkien promovida na Livraria Cultura de Porto Alegre e eu recusei, pois eu não pensava ter conhecimento suficiente para fazê-la: como alguém que nem leu a biografia do autor poderia falar com propriedade sobre o assunto? E mesmo se eu tivesse lido, como seria possível eu me preparar em apenas duas semanas? Diante da minha recusa, a tarefa caiu sobre o colo de um amigo meu.

Quando chegou o dia da palestra, sentei na plateia e assisti ao meu amigo dizer absolutamente tudo que eu já sabia, e talvez menos. Esse era um amigo com conhecimento vasto de medievalismo, cursando Direito, infinitamente mais rápido para pensamento e fala do que eu. Mas neste assunto, por mais que eu quisesse me convencer do contrário através de todos os truques mentais que a minha baixa autoestima pudesse inventar, eu tinha mais conhecimento. E eu deveria estar naquele palco. Na saída me perguntaram se eu gostaria de fazer uma palestra em março, e eu aceitei.

Eu escolhi um assunto que me parecia “interessante, embora trivial”: evolução das línguas élficas. Um assunto que eu poderia cobrir em “mais ou menos uma hora”. Me preparei o melhor que pude. Criei slides. No dia, saí mais cedo do trabalho. Preparei minhas anotações, testei os slides e aguardei as pessoas entrarem no salão. Fui apresentado e comecei a palestra, passados alguns minutos das 19hs.

Não demorou muito para eu perceber duas coisas: a primeira é que a minha mão direita tremia, mas minha esquerda não; a segunda é que olhar para o cabelo das pessoas é bem mais confortável do que olhar para os olhos delas. Ao longo da palestra eu ganhei confiança. Até demais. E é aí que o perigo mora.

Ao chegar na hora de explicar a pronúncia do <G>, eu falei: “No élfico, o som do <G> é como na palavra ‘gato’, nunca como na palavra ‘geito’.”

E todos na plateia congelaram e olharam para a pessoa ao lado com espanto.

Eu parei. Pensei no que eu tinha falado. Acabou de ocorrer o que eu mais temia no mundo, que eu cometesse uma gafe tão absurda que a falsidade do meu expertize fosse descoberta e as pessoas fugissem, indignadas, do auditório. Que uma fenda se abrisse sob meus pés e me engolisse no momento em que eu dissesse algo incoerente ou estúpido.

Ninguém fugiu. Ninguém se indignou. Nenhuma fenda se abriu.

Eu olhei para o teto, cocei meu queixo com a outra mão e disse de forma sarcástica “Err, espera um minuto…” E todos riram. E eu ri. E o resto da palestra foi tranquilo.

De fato, a palestra foi tão longa, mas tão longa, que eventualmente minha mãe, da plateia, levantou uma placa dizendo apenas “20:45”. Em 15 minutos aquelas pessoas estariam sentadas na minha frente por duas horas, escutando pacientemente (algumas, talvez, com interesse!) sobre o assunto que eu abordava. Era hora de finalizar a palestra. Terminei o resto em 5 minutos e abri um período para perguntas. A primeira pergunta foi de uma menina demonstrando um certo espanto no rosto: “Onde você aprendeu tudo isso?”

Como a maior parte das coisas boas na vida, eu percebo elas só depois de muito tempo. Essa pergunta, do jeito que foi feita, na ocasião em que foi feita, talvez tenha contribuído mais para a minha confiança do que muito do que eu tenha feito ou dito. Eu saí de lá muito feliz comigo mesmo e pronto para fazer mais uma palestra no outro dia, se alguém me pedisse.

Originalmente publicado no meu blog pessoal.

Quatro anos e algumas respostas aos leitores

Creio que foi a primeira vez que deixei o aniversário do site passar em branco, mas dezembro e a primeira semana de janeiro pareceram um ano inteiro de trabalho árduo. Foi no dia 26 de dezembro de 2006 que eu criei este site, que me deu até hoje muito trabalho e muita satisfação. Estamos, portanto, no quarto ano do Tolkien e o Élfico.

Entre uma coisa e outra tive algum tempo para responder alguns e-mails e comentários. Abaixo seguem alguns, em nenhuma ordem em particular:

olá ! tenter de todas as maneiras e não consegui  uma tradução de uma frase em portugues para o elfíco , é que eu vou fazer uma tatuagem … será que vcs podem me ajudar ? desde já .muito obrigado… ” Quem é abençoado ningém amaldiçoa …”  e também , César Prattes , e Hervé Ramos.

I aistana umë húta. “Aquele que é abençoado não amaldiçoa.”

César “cabeludo” talvez seja melhor traduzido como Q. Findecáno, S. Fingon “cabelo-comandante”.

Hervé significa “digno de batalha”. Em Quenya sairia como Ohtaférimo, creio eu. Não tenho uma tradução pronta em Sindarin.

existe o nome Laila em Elfico??

Seu nome significa “noite” em árabe. Em Sindarin Daw (w = u), em Quenya Lómë.

SOU ENCANTADA COM ESSE MUNDO E ESSES SERES ELFICOS ME TRAZEM MUITA PAZ QUERIA ME APROFUNDAR MAIS E ESTUDAR A LINGUA, SÓ QUERIA SABER QUANDO E COMO OS ELFOS EXISTIRAM E POR QUE FORAM EXTINTOS? OBRIGADA!! MELISSA

Em 2006 e 2007 foi feito um estudo pela Universidade da Islândia dizendo que 8% da população islandesa acredita que elfos definitivamente existem, 17% disseram que há altas probabilidades de que existem, e 37% que possivelmente existem. Na Inglaterra pré invasão normanda, diz Tom Shippey (Tolkien Studies Vol. 1, pp. 2–3):

“Existe uma dezena de palavras para “elfo” em inglês antigo, as formas masculinas e femininas sendo ælf e ælfen, e o composto de palavras land-, dún-, feld-, munt-, sæ-, wæter-, wudu- e, possivelmente, berg-ælfen ou, mais raramente, -ælf, ou seja, em sequência os elfos “da colina, da terra, do campo, da montanha, do mar, da água, da floresta” e, mais uma vez, “da montanha”. Esses parecem promissoramente precisos e variados, mas são de fato quase sempre glosas, palavras escritas sobre um texto em latim para traduzir uma palavra nessa língua, neste caso respectivamente nos itens quatro a nove na lista acima seriam castalides, moides, oreades, naiades, nymphae e dryades. A explicação mais simples é que um tradutor anglo-saxão a muito tempo atrás, com dificuldade para encontrar um equivalente para “náiade, ninfa, dríade”, decidiu de forma razoável solucionar todos os seus problemas de uma vez e criar “elfa-do-mar, elfa-da água, elfa-da-floresta”, etc. Enquanto isso, textos médicos ou mágicos anglo-saxões nos lançam uma quantidade de compostos mais interessantes, se mais ameaçadores, como ælfadl, wæterælfadl, ælfsiden, ælfsogoða, o nome de “doenças élficas” como (foi sugerido) varicela, edema, demência, epilepsia e anemia. O último é uma suposição a partir de ælfsogoða, “elfo-sugar”, e indica que uma forma que se acreditava que os elfos causassem problemas era através do vampirismo, enquanto nós também encontramos várias vezes “tiro-élfico”, ou ylfa gescot [sc = “x” de xícara], que indica uma crença (talvez ilustrada em um desses textos) em dardos invisíveis portadores de doenças. Os elfos também parecem ter se associado com a tentação sexual. Vários encantos associam os elfos com nihtgengan, “prostitutas”, com “tentações do demônio” e com þat mannum þe deofol mid hæmð “o povo com o qual o demônio faz sexo”. Não é surpreendente que os elfos anglo-saxões são normalmente chamados de “malignos” por estudiosos modernos. E ainda assim é um elogio para uma mulher ser chamada ælfsciene, “bela como uma elfa”, e os anglo-saxões continuarem de maneira teimosa a dar nomes aos seus filhos como Ælf-wine, Ælf-red, Ælf-stan, e assim por diante, “Amigo-dos-elfos, Aconselhado-por-elfos, Pedra-élfica”. Alguns desses nomes, como o comum Alfred e o raro Elwin (como em Elwin Ransom) mantiveram-se em uso até hoje, embora não mais com qualquer sentido do seu significado, e algumas das crenças sobre elfos sedutores, colinas élficas e fadas élficas também sobreviveram até o período moderno.”

… no qual o autor reaprende a escrever

Algumas novidades estruturais no blog.

A primeira é que devido à larga adoção do padrão @font-face entre os navegadores de internet modernos, eu estou mudando globalmente a fonte do blog para a Gentium Basic, e você poderá ver essa fonte mesmo que não a tenha instalada no seu computador. Você também deve poder ler 1RjaH como o Quenya telco escrito em Tengwar sem ter as fontes élficas instaladas.

Se você estiver utilizando o Mozilla Firefox como a maioria dos meus visitantes, ou o Google Chrome como 14% deles, você não notará diferença no layout do site. Contudo, se você estiver utilizando o Internet Explorer, notará que não há mais borda separando o fundo da área de conteúdo, e por isso me desculpo. O padrão de Cascading Style Sheet 3 me permite utilizar o estilo box-shadow, e isso me economiza muito tempo de Photoshop e o trabalho de encaixar as imagens no lugar. Neste momento eu não tenho como investir tanto tempo no design do blog. Mas não se preocupem! O Internet Explorer 9 terá suporte para essa função do CSS3 e ele é um excelente navegador, mesmo em sua versão beta!

Por fim, eu estou revisando artigos antigos dos resumos do Curso de Quenya, tentando simplificar o conteúdo ao máximo. A Lição 1 deve dar uma ideia do que eu estou falando. Onde antes havia tabelas e uma extravagância de negritos e itálicos há, agora, um artigo bem mais conciso.

Quando pensar como um elfo falaria, não exagere!

Lollercoaster
Lollercoaster

Eu já vi muita coisa estranha em fóruns sobre línguas élficas, mas a Elfling merece uma menção honrosa. Segundo Annaka Schultz, o reino Noldor é o melhor exemplo de um povo que aderiu de corpo e alma à causa da Sociedade Protetora dos Animais, pois eles não consideravam qualquer ser vivo como “posse”.

Seria algo maravilhoso, se Annaka tivesse ao menos uma prova textual. Infelizmente, ela não tem. Oops!

Tudo começou com uma tradução para uma coleira de um bichinho de estimação. A dona do bichinho queria escrever, em Quenya, as palavras “Eu pertenço a Ranaewen”, mas não conseguia achar em qualquer “dicionário” uma palavra para “posse”. Sua tentativa mais próxima foi **amin nauta an Ranaewen (desnecessário dizer que a tradução é do élfico da Grey Company, que não é tolkieniano).

Como nós sabemos que Tolkien deixou explícito que os elfos não “tinham filhos”, mas “estavam com filhos” — ou seja, não se referem aos filhos como posses — Annaka (usando o nome Órerámar) aparentemente estendeu a cortesia élfica, com a ajuda de algumas frases tiradas do “Book of Lost Tales”, a todos os seres vivos. As mensagens que originaram as discussões estão aqui e aqui, e a lista de mensagens que as seguem podem ser vistas após as originais.

Mas meu objetivo não é acabar com a reputação da pobre Annaka — todos nós cometemos gafes, e minha primeira mensagem na Elfling não foi diferente. O objetivo é lembrar que quando vamos fazer uma construção em neo-élfico, é importante sim imaginar como um elfo falaria, pois as línguas élficas não são apenas o português ou o inglês disfarçados. Mas para isso é importante estudarmos sem preconceitos as obras de Tolkien, relermos passagens e reavaliarmos nossas interpretações. A Annaka, por algum motivo, não só não viu o óbvio como se recusou a aceitar uma quantidade convincente de provas contrárias ao seu ponto de vista. Não façamos o mesmo erro em nossas traduções.